terça-feira, 9 de novembro de 2010

O diário de Clara


Ela, que fora chamada de tantos nomes que já nem se lembrava mais por qual havia sido batizada, agora era Clara. Uma garota determinada e de atitudes poucos convencionais e muito ousadas para alguém da sua idade, jovens quinze anos. Ela já se considerava uma mulher, digna de ser tratada com tal e talvez fosse mesmo, até demais.

Clara recebera esse nome pouco tempo atrás quando fora morar com seus novos pais e deixara o abrigo mais uma vez.
Uma voz autoritária irrompia em seu pensamento “Quando encontrar um casal diga: Não possuo um nome para que me chame, me dê um e serei eternamente grata.”
Ela era órfã e vivia pulando de casa em casa como vendedores ambulantes de mercadorias que ninguém está interessado. Ela queria um lar, sim, claro. Além de tudo queria pessoas que realmente pudesse chamar de pais e não apenas dois estranhos que lhe davam um teto, cama e comida.
Essa era a família de número cinco, de acordo com suas anotações em seu diário.

Trecho retirado do diário da menina:

Família 1 – Eternamente grata por ser Lúcia e empenhar o papel da empregada doméstica.
Família 2 – Eternamente grata por ser Marcela e bancar a babá dos filhos mais novos.
Família 3 – Eternamente grata pelo ridículo nome de Ambrósia e por ser a funcionária responsável pela papelada da casa.
Família 4 – Eternamente grata por ser Rita e pela vida em regime militar.

Ela não tivera sorte em nenhuma de suas famílias anteriores e não esperava nada diferente dessa. Mais um nome, mais uma temporada horrível na companhia de duas pessoas que nunca se tornariam, de fato, seus pais e mais tempo perdido.
A “mãe” passava o dia fora, trabalhando para pagar os vícios do marido alcoólatra e labioso. O “pai” ficava diante da televisão com uma garrafa de cerveja que se esvaziava numa velocidade impressionante e tão logo era substituída por uma cheia. Clara, ainda no seu período “experimental”, bancava a boa moça, sem reclamações e sempre com um falso sorriso estampado no rosto.
Ela tinha um quarto só dela, não havia outras crianças na casa. Uma faxineira limpava tudo a cada dois dias, as contas e serviços bancários eram feitos pela “mãe” trabalhadora.
As coisas iam bem para Clara, até o dia que faltou cerveja.
O pai encarou a menina com um olhar malicioso e seu interesse passou da tevê para as curvas precocemente delineadas da garota. Ele desligou o aparelho com o controle remoto, levantou-se com dificuldade, alterado pela embriaguez e foi na direção dela. Sem dizer nada, alisou os cabelos da menina, acariciou o pescoço e sua mão lentamente fez o caminho descente.
Clara não soube como reagir, aquilo nunca havia acontecido antes. O homem apalpou-a sem pudor e a outra mão apoiada na coxa dela subia linearmente.
A porta se abriu de repente e com uma precisão incrível para um bêbado o homem se pôs sentado no sofá, encarando a tela inocentemente. A mãe não percebeu nada de estranho e o dia seguiu sem mais peculiaridades.

“Não ficar sozinha com ele.” Clara escreveu em seu diário.

No dia seguinte, estavam a sós novamente, Clara e o pai pervertido que mais uma vez se arrastou para cima dela. Enquanto suas mãos deslizavam pelo corpo da menina, ela o agarrou pelos cabelos e deu-lhe uma joelhada no meio das pernas, tão forte que o homem despencou no chão urrando de dor.
Ela rapidamente apanhou sua mochila, já com seus pertences guardados e saiu da casa.
Retornou ao abrigo, de onde jurou que só sairia quando completasse 18 anos.

Família 5 – Eternamente grata pelo nome Clara e por ser alvo de um pedófilo.
Meu último momento de sarcasmo, diário. Eu prometo.

6 comentários:

Au disse...

Tudo que você escreve fica muito bom...
Quando comecei a ler imaginei que a menina-sem-nome iria ter um final feliz, não teve, triste. Mas eu adoro ser surpreendido.


Abraço!

Nina disse...

Q texto maravilhoso!!! Adorei!

Coitada de Clara, Rita, Ambrósia,etc.
hehe!

Bjos

Nina

Cristiano Guerra disse...

Em uma palavra?
Surpreendente.
Porque são textos assim que me prende a atenção, são textos assim que me fazem ser fã.

Letícia R. disse...

Ficou ÓTIMO!
Amei a trama do texto, o desenrolar dele, e tudo.


Fiquei com pena da Clara, por ela "pular de casa em casa". Mas se não fosse assim, não haveria história. *-*

É intrigante, amei mesmo.

Vanessa Paganotti disse...

Sabe como usar as palavras, parabéns. Texto muito bom, e com um final apesar de previsível, por tudo que ela tinha passado, se tornou imprevisível com nossa esperança de final feliz.

Thiara Ribeiro disse...

Sempre surpreendente.
Do ínicio ao fim!