sábado, 16 de outubro de 2010

Dance por mim - 2º Ato




















- 1ª parte.
- 2ª parte.




A luz ascendeu como para varrer o tempo que passei longe de onde sempre deveria ter estado. Entrei no palco como quem tem uma missão. Aliás, eu tinha. Sou uma bailarina e entrei ali para provar isso. A música de Mozart guiou minha coreografia. E sim, eu dancei como nos velhos tempos russos. Como se nunca tivesse fugido, como se ainda estivesse em São Petersburgo. Senti minhas mão estenderem-se, minhas pernas rodopiarem vez e outra; senti vento e adrenalina no rosto, meu pés contrairem-se sobre as sapatilhas de gesso e senti meu corpo parar junto com a música. - Bravo! Bravo! - Um barbudo gritou da banca de jurados. Eles sabiam que eu merecia estar ali, eu também.

Então consegui uma bolsa na Academia Bombaieva. Escola de dança mediana no centro do Rio coordenada pela Senhora Elisa, a mesma que permitiu-me fazer o teste. Entrei já para o grupo profissional, assalariada e comecei a treinar para o musical que seria apresentado dentro de 2 meses. O quebra-nozes. Obviamente entrei como bailarina secundária, mas de fato, não era o que eu queria. Esforcei-me ao máximo para que fosse promovida ao posto de principal. Além dos treinos das 2 às 6 horas da tarde, treinava toda noite em casa e nos momentos livres pela manhã quando não estava ajudando mamãe com sua costura. Devo dizer que mesmo com tanto esforço não consegui ser a primeira bailarina. Pelo menos não nessa apresentação. No outro musical, sim, O corsário, fui protagonista. Foi quando treinei mais ainda, gloria nenhuma vem sem esforço. O espetáculo foi um sucesso, tendo, nas duas semanas em que esteve em cartaz todos os ingressos esgotados. Depois de conseguir aquela vaga, não podia esperar um novo convite, pelo menos não depois de um curto período de 5 meses. Uma carta fora deixada para mim na porta de minha casa.

Segui o endereço do remetente que apenas dizia uma rua no bairro da Cinelândia e um horário, e que era de extrema importância a minha presença. Ao chegar no local, só poderia ter sido um trote. Mas não foi. O número indicado era o de um palácio numa esquina. Pilares de mármore, pelo menos uns 4 andares. O Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Entrei na recepção preparada para um "Não, senhorita. Essa carta não foi nossa". Uma atendente apenas disse: - Senhorita bailarina, pode arrumar-se naquela sala e aguarde ser chamada. Como assim quando ser chamada? O que era esse mistério todo? Tive de perguntar. E a atendente disse que para evitar fraudes, as cartas enviadas para dançarinos convocados não eram assinadas por ninguém do teatro, e nem tinham seu brasão marcado, apenas enviadas. E se eu estava ali, com a carta na mão, não havia dúvida que eu havia sido convocada. Só podia ser piada! Como assim era um teste? Não tinha roupa para dançar. Mas é claro, a atendente já tinha em mão tudo o que eu precisava. E não, ninguém joga a sorte fora.
- Senhorita Dibrinsky?
- Sou eu.
- Um olheiro desta casa observou a senhorita durante a última peça em que dançou. Acreditamos que a senhorita possui talento necessário para ingressar no corpo acadêmico deste teatro. Desculpe-nos não termos avisado previamente do que se tratava. Convite para um teste, na verdade. Se soubesse antes o que pretendíamos fazer, obviamente teria preparado-se. Que é o que não queríamos. Queremos ver o que a sensibilidade e a técnica que há em você, espontâneamente. Preferência por alguma música?
- Sim. Bachiana brasileira nº 8, de  Villa-Lobos.
- Como queira. Por favor, esteja preparada quando a música começar.
- Obrigada.
Quando a música começou, é óbvio que eu não sabia o que ia dançar. Conhecia a música, mas isso não mudo o fato de eu estar totalmente aterrorizada e intimidada. Pra quem ainda não souber, o Teatro Municipal mantém o melhor corpo de bailarinos do Brasil. Então eu dancei, porque eu sabia dançar. Saltos, giros, tesouras, passos, prolongamentos e pliès. Diante de 5 pessoas que perfuravam-me com os olhos. A grande surpresa da história, é que por unanimidade fui admitida. Uma fugitiva russa, que chega ao topo do ballet brasileiro , cuja única pretensão era trabalhar. Demorei uma semana para absorver a ideia.
Não preciso falar que comecei a ganhar muito dinheiro. Mudamos de lugar e a essa altura mamãe já tinha um ateliê. Meses passaram, claro. Eu tinha 23 anos e estava no auge de uma carreira artística, treinando durante o dia e apresentando-me durante a noite. Dançava inclusive fora do Brasil, nos grandes festivais internacionais. Mas nada comparou-se a quando recebi a proposta de fazer uma turnê, sozinha, pelos grandes centros europeus. Paris, Madrid, Viena, Budapeste, Londres, Lisboa, Praga e quantas outras grandes cidades você puder imaginar. Quando uma bailarina sonha, ela não sonha tão alto. Sonha em ser linda, em ser aplaudida e ser lembrada. Mas não imagina o quão grande isso significa. Não imagina nunca que pode chegar ao Bolshoi. Sim, eu estava voltando para casa. A grande Rússia, já apaziguada, receberia a mim, como representante do corpo brasileiro no festival de Moscou. Não consigo descrever o que sentia durante os poucos dias que ensaiei naquele teatro. Posso descrever o que senti no dia da apresentação, e foi desespero. Porque durante um salto no ensaio geral do meu solo meu tornozelo estalou.

Fui para meu quarto arrasada com uma barra de gelo. Liguei para mamãe. Espero que você me entenda, da mesma forma que cheguei tão rápido nesse meu estágio da narrativa, é a mesma forma como simplesmente me machuquei gravemente. - Minha filha, não esqueça o que te disse enquanto você ainda era criança: "Uma bailarina pode ser qualquer coisa, inclusive forte.". Entre naquele palco, suba na sapatilha e brilhe. Porque eu sei que você é capaz. - Foi o que fiz. Mesmo morrendo de dor, sorri quando a cortina vermelha do Bolshoi se abriu. E o sentimento daquele momento me deixou anestesiada. Após os aplausos, quando as cortinas se fecharam, desci da ponta da sapatilha direto para uma queda no chão. Fui levada a um hospital, onde deram-me a notícia que meu tornozelo estava quebrado. Estava fissurado, mas com o esforço da última dança, selei meu destino de nunca mais dançar. Meu tornozelo estava tão fragmentado, que mesmo quando melhorasse, seria impossível continuar com minha carreira no ballet. Mamãe acertou. Entrei no mais importante palco do mundo e brilhei como uma estrela. Que se diga, estrela cadente, passou e se apaga. Você que está escutando essa minha história não fique triste, porque eu não fiquei. Afinal, realizei um sonho.

Desculpe ter contado tudo tõ rápido e confuso, mas foi desse jeito que aconteceu, e foi esse mesmo sentimento que senti. Então, sabe essa música que tá tocando agora? Foi a que dancei naquela noite. Ela que me fez relembrar minha trajetória. Espero que eu não tenha tomado demais seu tempo, mas você sabe, é sempre bom contar histórias. Minha vida não acabou ali, abri uma academia, que leva o nome de minha mãe. Ainda tenho as sapatilhas do meu primeiro teste e as da minha última apresentação. Sonhos são feitos para serem realizados, e serão. Mas ninguém garante o tempo que demora para acontecer, e nem que sonhos duram para sempre. Mas aconteça o que for, não deixe de sonhar. Ah!, não esqueça também do que mamãe sempre dizia: "Uma bailarina pode ser qualquer coisa, inclusive forte". Ninguém pode dizer que eu não fui, fui durante toda minha vida. Mesmo quando desisti, voltei e lutei de novo. E se uma bailarina pode ser forte, por que você não?

5 comentários:

Aleatoriamente disse...

Menino,
que maravilhoso esse texto.
Tens um talento lindo e eu? amei passear aqui agora cedinho.

Beijo.
Fernanda.

Angélica Lins disse...

Aplausos em pé!

Beijos poeta.

Nina disse...

Maravilhosooo!!!! Escreves muito bem!!!

Aplausos!!!

Quem dera eu pudesse escrever tão bem assim como você!!!


Bjos no coração!


Nina

Jυℓyαnα ツ disse...

Maravilhoso!
Para todo aquele que dança e sonha com o dançar esse seu conto cai como um hino de que os sonhos podem se realizar.
E como a mãe dela dizia:
" - Uma bailarina pode ser qualquer coisa, inclusive forte. "
E é isso que todos deveriamos ser ;)




;*

Rodolpho Padovani disse...

O difícil é começar né, Cristiano? Mas como eu te disse eu mergulhei a história e me vi na platéia enquanto lia, prendi a respiração na hora que o tornozelo dela estalou, aplaudi depois da dança e sorri e me emocionei com a lição que vc nos deu no final de tudo isso.
É, sonhos não são feitos apenas para se sonhar, e sim para realizarmos, embora nunca saberemos por qto tempo eles durarão. Desistir, só se for pra começar outra vez.
Se ela pode ser forte, também hei de ser.
Muito bom mesmo.