sábado, 25 de setembro de 2010

O casarão abandonado


Como todo fotógrafo eu também busco a beleza, mas diferente dos outros eu a busco em lugares esquecidos ou parados no tempo. Sou um "explorador urbano", é esse o termo usado para designar o que eu faço, que é sair em aventuras em busca da beleza na decadência.
Eu e mais dois amigos nos reunimos naquela tarde e partimos até um casarão abandonado. A casa morta ainda respirava vida através dos pequenos detalhes, em cada papel de parede decrépito ou em lustres danificados. Enquanto registramos tudo com nossas câmeras, não deixamos de nos perguntar como era quando aquele lugar era ocupado, como seriam as pessoas ricas que percorriam cada cômodo.
O vento sibilava pelos cantos, o cheiro de mofo grudado nos objetos exalava pelo ar, o nada vagava pelos corredores silenciosos à procura de companhia. A casa toda possuía uma sensação de mistério e segredo.
As portas de madeira podre e as janelas de vidro quebrado formavam um quadro belíssimo diante de nossos olhos que captavam a sutileza em cada objeto caído. As cortinas rasgadas permitiam a luz solar que penetrava no ambiente com o decoro suficiente como se pedisse licença para iluminar aquilo que ninguém se importa mais.
Porta-retratos exibem rostos sorridentes que há muito deixaram de sorrir. O assoalho de madeira range como se gemesse de dor quando pisado. A poeira se agarra em tudo aquilo que está ao seu alcance. E nós fotografamos, gravamos em imagens o esquecimento e a desolação.
Uma chave grande, de um prateado ofuscado, deixada sobre um bilhete dobrado em criado-mudo empoeirado e inútil nos chama a atenção.
"A chave o levará aonde muitos morreram sem conhecer." Dizia o bilhete em letras meio apagadas. Pegamos a chave, ignoramos o quão sinistro o bilhete era e começamos a procurar a fechadura que casava com ela.
O sol já bocejava de sono quando encontrei a porta do sótão. Uma porta escura e assustadora. A chave funcionou perfeitamente, girei a maçaneta e entramos em um cômodo escuro. O feixe de nossas lanternas procurava por algo que indicasse o que havia ali dentro. A porta se fechou subitamente e ouvimos uma voz gelada dizer: "Alguns segredos nunca devem ser desvendados"
E nós nunca mais fomos encontrados.
A casa realmente guarda um mistério, contudo não ouse cruzar aquela porta para descobrir qual é.
A chave fora colocada novamente sobre o criado-mudo, juntamente com o bilhete, à espera de novos exploradores. À procura de novas vidas.

12 comentários:

Lua Nova disse...

Delicioso!
Muito bem escrito. Acho que temos um excelente contista em formação.
Beijokas.

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

Um mini-conto, uma riqueza do mistério. Me empresta a chave?
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 15/09/2010

Flor de Lótus disse...

Nossa que bacana!Fiquei curosa para conhecer essa casa, também quero a chave para desvendar esse mistério...
Beijosss

Nina disse...

Adorei! Que casa Sinistra!!!! Nossa!!! Que medo!

hehe

Bjos

Nina

Luria Corrêa . disse...

MUUUITO legal Rod., além de eu gostar do assunto, o conto foi lindo. Adoro retratar fotografias de lugares antigos e fazendas principalmente, em breve talvez eu abra um blog só de fotografias.

bejs :*

Anna Beatriz disse...

Nossa que incrível! muito bem escrito, adorei o blog =]
beijos!

Jυℓyαnα ツ disse...

Que final surpreendente!
Seu conto ficou muito bom.
Nos leva a crer em um fim e nos leva a outro...
Vou passar a tomar mais cuidado quando for fotografar casas " abandonas "





;*

Thiara Ribeiro disse...

Adoro esses mistérios! Me fez lembrar de um texto seu!
Muito bom!

;*

Gabriela Furtado disse...

Delícia de conto....
Você é bom mesmo nisso, né?
Beijos querido:*

BlackRabbit disse...

kralho!!!
q legal!!!
me senti em um conto do Neil Gaiman...
*-*
jah leu "O palhaço" dele???
=B
enfim...
flwz...
\o
"Alguns segredos nunca devem ser desvendados"...
gostei dessa frase...
^^

Insana disse...

Muiiito bommmm!!

bjs
Insana

Leticía Gomes disse...

roooooooo, tudo bom?
nossa, fazia tanto tempo que não lia coisas suas.

olha, tenho que te falar: seus textos têm muita diferença de outros blogueiros. suas figuras de linguagem são fanstásticas, tenho certeza que você terá muito sucesso se escolher se dedicar à escrita.

eu sempre tive medo de mansões abandonadas e muita vontade de explorar uma (com pessoas comigo, lógico).
você fez isso pro mim, agora acho que não vou mais procurar nenhuma, rs.

e sabe uma coisa que me deixou muito feliz? um dia eu tinha tentado te corrigir falando (com o maior jeitinho com medo de te ofender) que seus textos tinham períodos muitos longos, e você passou a colocar mais pontos finais.

na minha opinião, está tudo muito bom aqui. e quanto ao seu conto em pedaços na arte de um sorriso, vou ler quando acabar, como fiz no do monge. ainda lembro o quanto amei aquilo..
ok, chega de puxar o saco, vou ler o último conto postado aqui, quero ver se é bom também.

beijão.