quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Entre irmãos

Mamãe morrera em um hospital, fora mantida viva por aparelhos até o dia em que seu coração parou de bater. Foi no dia de sua morte que eu e meu irmão dissemos um ao outro que não queríamos esse tipo de vida, preso a aparelhos.

Desde ontem estou no hospital, passei a noite ao lado do leito de meu irmão que sofrera um grave acidente de carro e estava inconsciente desde então. Os médicos eram céticos quanto a sua recuperação e os ferimentos eram demasiadamente graves, tanto que ele passou por várias cirurgias antes de ser internado em estado de observação.
Seu corpo estava ali, mas ele não o habitava mais. As máquinas sugavam e bombeavam ar para seus pulmões, os sussurros e bipes automáticos eram sua voz. Eu precisava libertá-lo.
Seu estado não melhorou com o passar dos dias, mas a esposa dele tinha o controle da decisão e ela o queria vivo. Ela se agarrara veemente à ideia de que ele estava ali ainda e por isso não consentia em desligar os aparelhos, mas eu sabia do desejo de meu irmão e aquilo não era o que ele queria, só que ela não me escutava.
Tentei dissuadir os médicos a aconselharem minha cunhada pela opção mais coerente, mas nenhum deles me deu apoio, foi então que me vi preso a única escolha sensata a se fazer. Eu sabia que se eu desligasse os aparelhos isso seria visto como um crime, mas era um risco que eu deveria correr.
No início da terceira semana eu pedi permissão para passar a noite e isso me foi permitido sob vigilância. Aproveitei a deixa da enfermeira que fora solicitada em outro caso e despluguei os aparelhos de meu irmão.
Tirei sua vida. Os bipes enlouqueceram e as linhas do gráfico do monitor de batimentos cardíacos perderam força e só o que a tela mostrou foi uma linha reta. E ele se foi.

Estou preso e aguardando minha sentença por um ato que acredito ter sido certo. Meu irmão faria o mesmo por mim e eu não me arrependo da minha decisão, só tive pena da minha cunhada que me informou que estava grávida e por isso tinha esperança de ter meu irmão de volta, mas apesar de tudo eu ainda me considero inocente.
Às vezes as atitudes que são julgadas mais irracionais são aquelas que realmente são tomadas com a razão.
E você? O que faria em meu lugar?

10 comentários:

Nini C . disse...

Caramba hein, conto excelente. Adorei. Acho que faria a mesma coisa, como voc disse, as vezes as atitudes que são julgadas mais irracionais são aquelas que realmente são tomadas com a razão.
beijos...

quareesma disse...

é por isso que cada situação tem o seu ponto de vista particular, pois cada um enxerga de maneira diferente.
confesso que realmente eu não sei o que faria .-.

beijas :*

Jυℓyαnα ツ disse...

Eu sinceramete acredito em eutanasia, acho que deve ser escolha do paciente e que somente a pessoa tem o direito de decidir se quer viver ou não.
No caso da pessoa em questão não poder ou conseguir se comunicar para transmitir sua opinião deve-se levar em consideração sua opinião anterior ao fato que levou-o a dita situação.





;*

Nina disse...

Muito lindo o post,na verdade o post é maravilhoso. Como sempre e cantando com as escritas deste blog. Parabéns!

Bjos♥

Tati disse...

Eu desligava eu acho. Só vivendo pra saber, mas acho que eu desligava.

Muito bem escrito Moço.

Beijos

Natália disse...

Sinceramente, deixaria os aparelhos ligados, mas por outro lado seria melhor desligá-los, pois seria "bem melhor" do que ficar criando expectativas que ele melhoria...

Muito bem escrito, como sempre, parabéns. Beijo

BlackRabbit disse...

puts...
realmente...
decisão bem difícil...
>.<
acho q tbm não saberia o que fazer...
._.
mas...
muito bom o conto!!!

Thiara Ribeiro disse...

No seu lugar eu não sei, mas no lugar da esposa...talvez tivesse feito a mesma coisa!
Me agarraria a qualquer esperança de ter o amor da minha vida, ao meu lado!

Pode ser egoísmo...mas quando amamos muito, é tão dificil pensar numa vida longe...!

=)

Perfeito, querido Rodolpho!

;****

Karla Thayse disse...

Difícil, muito difícil...
Eu faria o que o coração mandasse.

Tenha uma semana de luz!

Beeijo

Cristiano Guerra disse...

Uou! Como assim o que eu faria?
Muito difícil pensar hipoteticamente. Mas sendo a vontade, a última vontade, de um irmão meu, merece ser respeitada.

Fantástico.